Em minha mente apenas uns flashes
rápidos. É assim que a memória lembra. Tudo meio embaçado, editado, em vinheta
e às vezes tenho a sensação de estar enganada. Vivi isso mesmo? Desde quando me
tornei tímida? Coisas inexplicáveis, mas nos últimos meses me tornei o que se
chama na gíria descolada: low profile.
Ainda não sei mensurar o quanto isso é bom ou pode ser negativo. Mas não vem ao
caso.
Conversa de gente tímida que se
sente atraída é meio engasgada, meio sôfrega e sem nexo. Já reparou? Não sabia
que era assim porque nunca fora reservada antes de ser essa que sou hoje. É
estranho. “Atitudes valem mais que palavras”, ele me disse. E era isso mesmo
que eu tanto precisava e desconhecia! Desconhecia? Talvez não. Ser humano gosta
mesmo de se enganar. Mas por falar em enganos, isso não foi.
Recordo-me agora de tudo com uma
vivacidade assustadora. Lembro-me que estava tocando “Let it be, let it beee”
quando ele me beijou pela primeira vez. No exato momento pensei: “tenho que
lembrar que foi essa a música que tocou”. Acho que os detalhes são coisas muito
significativas. Sempre fui assim apegada a coisas ínfimas, pois elas possuem
charmes ocultos.
Sem saber eu estava entregue. E em um vestido bobo
de coraçõezinhos! Tornei-me um pouco pacata para as coisas do amor porque tenho
muito medo de sofrer, porque sei que já sofri, porque sei que vou sofrer,
porque já sofro enquanto escrevo e provavelmente muito mais enquanto me lês. No
fundo sou muito intensa e me chateia ter que ser cautelosa, mas isso é a arma
de um bandido antigo.
Resisti em pensamento, mas numa fração de
tempo efêmero estava eu encantada pelos olhos puxadinhos que me olhavam por
trás da miopia. Meu corpo vasto, quente, cheio e tão sofrido em cirurgia,
lágrimas e profanações recolhia-se cauteloso ante a fragilidade do outro corpo,
tão esquálido e delicado. Na minha
novela é tudo ao contrário e são as mulheres as corpulentas e os mocinhos os
delicados.
Permitam-me suspirar. Pausadamente
até o fundo. Chega a dar uma dorzinha porque percebemos que somos mais do que
conhecemos, somos profundos, um oco habitado. Pronto, já passa.
Não sei ao certo de pormenores, o
que fiz, como fiz, se fiz. Certo ou errado não há. Há momentos, opções,
decisões e entregas. Sei apenas que ser surpreendido é dádiva e condição da
vida.
Penso em etapas voláteis: cabelo
preto liso, sofá, óculos Cardin, caretas irrepresentáveis, boca carnuda e maior
na parte de baixo, mãos magras, sapato de vô vintage, a geladeira, os desenhos
dos azulejos da cozinha, um copo de água, lençol azul, uma voz grave, um cheiro
doce e amadeirado, a música, o toque, as vozes lá fora, receio, desejo, Van
Gogh, Impressionismo, cigarro, violão, piadas, amigos, o desejo, o receio, cabelo
preto liso, sofá, óculos Cardin, caretas irrepresentáveis, boca carnuda e maior
na parte de baixo, mãos magras, sapato de vô vintage, a geladeira, os desenhos
dos azulejos da cozinha, um copo de água, lençol azul, uma voz grave, um cheiro
doce e amadeirado, a música, o toque, as vozes lá fora, receio, desejo, Van
Gogh, Impressionismo, cigarro, violão, piadas, amigos, o desejo...
Como num vinil desgastado eu me
encontro. Forçando a mente a lembrar e relembrar até riscar. E quando isso
acontecer a gente vira o lado. O que terá nele ainda desconheço. Ninguém
compôs.
Let it be.

Realmente em certos momentos viramos o "disco" e seguimos adiante...
ResponderExcluir: )
Que lindo Bruna, fico esperando mais e mais post seus.
ResponderExcluirVou te falar que fazia tempo que não degustava tanto um texto seu como este!
ResponderExcluirGostoso deixar a intensidade voltar à flor da pele.